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Graças aos preciosos guardados da Lú, recuperou-se esta maravilha de texto!

De:              José Carlos Machado Vieira
Para:           Lucia Maria Peret Pereira
Data:           Quarta-feira, 7 de Abril de 1999 23:39
Assunto:      Paraunando...

  Cara prima,

    Paraunar, no nosso cotidiano, é verbo que se refere a tudo que possa remeter aos "guardados" tão bem sintetizados no seu último "mail". Sempre que, entre primos, nos vemos perfilados diante de tantos__tão tocantes__exemplos como os que tivemos naquele casarão da antiga avenida Parauna,
n. 286 (depois Getúlio Vargas), repetindo de alguma forma suas originalíssimas "performances", brincamos que estamos "paraunando". Aliás, "paraunar" seria, entre os galhos da nossa genealogia, um eterno e saudável antídoto do qual sempre disporemos para fazer frente aos apelos insensíveis e insistentes de tanta globalização galopante como se vê... Uma feliz possibilidade de reação através de uma sublime recuperação de nossos marcos originais, básicos, alcançáveis pela nossa memória afetiva. Ao que me consta, Paraúna,  além de ser um município do estado de Goiás, seria também o nome de uma tribo indígena. Vou verificar se é isto mesmo ou se estou "viajando" sem lastro.
     Por falar em viagem, no mesmo túnel do tempo em que você trouxe nossos personagens daquela casa tão incomum (sempre pairando no ar, como que desafiando o tempo e sua velocidade, no concreto da longevidade de seus membros e na originalidade e fidelidade aos próprios referenciais nunca submetidos aos ditames dos modismos eventuais... ), trago também o próprio ambiente físico: entre BHC, naftalina, mofo, poeira (dos tempos...), cheiro de café com broa de fubá, pó de arroz, tintas de cabelo negras como das graúnas as asas, feijão em caldo suculento, guaraná Bremense (marca "sui generis" na praça, encontrada apenas lá mesmo) sem muito gelo, bolachas água e sal (para tantos hipertensos), biscoito Maria e Maizena, bolos deliciosos de Tia Sophia (Ah! que sorriso maternal, não?), as carteiras da sala de Tia Eponina, os santos no quarto de vovó, os "santinhos" de Tia Conceição, o urinol de metal debaixo da cama de D.Chiquinha (sempre que íamos tomar sua bênção, estando ela acamada, chutávamos sem querer o dito-cujo...),  os relógios (tantos!), os livros (idem), as roseiras do jardim, as cadeiras "modernosas" da varanda, o telefone preto antigo, com uma capa de plástico vermelha, americana (daquelas compradas nos muambeiros da época, que vendiam de TVs Zenith a aspirina americana e outros badulaques como camisas de nylon, desodorantes etc) que foi um presente dado a vovó por mamãe lá pelos idos de 1964... etc, etc, etc ... Como não falar  no quintal com galos de briga, jabuticabeiras enormes (e fertilíssimas), além das bananeiras campeãs na superprodução de enormes cachos de todos os tipos: caturra, ouro, prata, da terra e maçã...  Mamões inesquecivelmente doces, Tia Sophia fatiava , ou amassava, e servia gelados__ numas tigelas de vidro azulão que às vezes vemos em antiquários... Tanta coisa... Quadros, em profusão! Fotos, fatos, coisas e, à mesa, forros ímpares de plástico ou oleados adornados com xadrezes e frutas... Mas, voltando ao ambiente humano, quanta prosa, quanto papo! Na sala de jantar, um cinzeiro-peixe-verde que deixava a fumaça sair pela boca aberta, divertindo a meninada... Nesse túnel de lembranças a gente se perde, se estica, corre o risco de se confundir. É assim mesmo, não há outra maneira; em espiral, vamos nos deslocando.
Bola ao cesto, só no lustre da salinha do telefone......
     É Páscoa, mas, terminando, volto em associação  "pra-lá-de-livre" aos Natais em ritmo Parauna: o presépio com lago e patos, estrela de Belém, papel pedra, Reis Magos, vaca, boi, carneiros (com pêlo), o galo da madrugada empoleirado ao fundo e muitos cristais e pedras semi-preciosas da coleção de Tia Naim adornando o cenário... A gruta, o espaço debaixo da escada de corrimão dourado. Coerentemente, só me resta, sumariamente, parar aqui com__ por que não?__um solene Feliz Natal temporão, mas sincero e verdadeiro, posto que Natal  é todo dia... Num cálice também azulão, um brinde com aquele vinho licoroso muito oferecido às visitas (também pouco encontradiço na praça da época), o fellinianamente rotulado comercialmente como "Nau sem rumo"...
             "E la nave va"!
        Saudações paraúnicas! (Ufa!)
        Abraços,
                 José Carlos.

volta

mas antes de voltar, continua...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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... Relendo a avalanche de imagens que me vieram naquele antigo papo com a Lú, estou sentindo falta de uma referência ao "louro" que vivia chamando "Fael!", assobiando, cantarolando "Ca-ca-ca-ca-reco, ca-careco é o maió", pedindo "café-com-pão", etc, etc! Nas visitas noturnas, era tia Fanny a cicerone até sua gaiola, sempre orgulhosa desta função, assim como da interminável incumbência de nos arrumar um copo d'água quando a sede nos apertasse...
Vou parando, senão...
               Beijos,
               Joca (fórum, 14/09/2002)
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