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TEMA EM DISCUSSÃO: MENINOS DE RUA
 11/05/2002
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 Muito devagar

 Botafogo se assustou com o caso do Queimadinho, chefe de um bando de meninos. Os jornais deram destaque, a polícia saiu atrás, e o pequeno e já perigoso personagem sumiu. Por trás do Queimadinho, entretanto, está todo o problema dos meninos de rua. Provocadas, as autoridades oferecem mil explicações - e, de fato, há toda uma rede de ações em funcionamento, destinada a resolver o problema.

A questão é saber se resolve. Parece que não, a julgar pelos bandos que se vê cada vez com mais freqüência em lugares mais ou menos sabidos.

Numericamente, os meninos de rua não são tantos assim. Mas seu poder de impacto é grande; e não parece equilibrado por ações eficazes. Uma das complicações óbvias é que cada caso é um caso. Há de tudo nas ruas. Menores infratores podem ser recolhidos temporariamente a institutos como o Padre Severino. Mas há quem não seja infrator, e que está na rua pelos mais variados motivos - por exemplo, violência em casa. Nesse caso, abrigos como o que o município mantém seriam da maior utilidade - se não fossem tão precários. Seria preciso um mínimo de qualidade; e funcionários minimamente competentes. Mas o que se vê, com freqüência, é gente sem formação e sem paciência, que, se o menino é trabalhoso, quase o remete de volta para a rua.

Vontade de fazer é essencial. Não falta quem trabalhe nesse terreno - nem sempre na boa direção. Existem ONGs que recebem dinheiro para tratar do menino de rua. Se o menino sai da rua, elas podem perder a gratificação. Há uma infinidade de setores a serem harmonizados - o que significa exercício de liderança.

O poder público não pode fazer tudo sozinho; mas precisa apegar-se a algumas diretrizes. E a questão do abrigo ruim não pode ser álibi para não se fazer nada e se cruzar os braços. Porque o abrigo ruim ainda tende a ser melhor que a rua - onde o não-infrator vai aprender a infringir; isto é, se tiver sorte, e não for simplesmente eliminado.

Há sinais de que o sistema público de apoio não funciona

Ação conjunta

Em seguida à trágica chacina da Candelária, a prefeitura do Rio de Janeiro implantou naquele mesmo ano um programa de atenção e atendimento a crianças de rua. Esse programa, denominado na época "Vem Pra Casa, Criança", transformou-se numa Rede Criança Rio de proteção e promoção das crianças, composta por um conjunto de organizações da sociedade civil, que, de forma parceira e compromissada com a diretriz municipal, desenvolve ações que caracterizam as várias etapas do trabalho.

A rede é hoje parte integrante de um conjunto maior de ações da política pública municipal de assistência social, que administra uma análise crítica dos avanços e retrocessos produzidos ao longo da implementação do programa, e reforça o investimento recente numa agenda social da cidade, que agregue todos os segmentos da sociedade numa luta que deve e precisa ser de todos: governos, juizados, conselhos municipais de direitos, organizações da sociedade civil, entidades religiosas, empresas privadas etc. Cada um disponibilizando parte de seus excedentes ou privilégios para a retaguarda organizada de serviços, bens materiais e simbólicos, que concretamente ajudem a construir a história de cada criança, sem privação daquilo que lhe é essencial; uma agenda social que gere mais que solidariedade, pena ou esmola.

Nesse contexto, a prefeitura não abre mão de seu papel gestor no enfrentamento da questão, e, para cada conjunto de crianças que o sistema econômico vigente empurrar para a rua, continuará a garantir a retirada de sua maior parte com sua inclusão nos serviços de saúde, educação, esporte, lazer e convivência social digna.

Sob a gestão da prefeitura, todos devem se envolver nessa luta

BERNADETTE JEOLÁS é coordenadora-geral do SIMAS - Sistema Municipal de Assistência Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.

 Jornal: O GLOBO / Autor: Bernadette Jeolás
 Editoria: Opinião / Tamanho: 656 palavras
 Edição: 1 / Página: 6
 Coluna: / Seção: Outra Opinião
 Caderno: Primeiro Caderno

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